A restauração trabalha com o que você entrega. Riscos, rasgos, manchas e desbotamento são estragos no papel, e uma passada de reparo dá conta deles bem. Borrão, reflexo e perspectiva achatada são estragos na sua cópia - acrescentados no momento em que você apertou o botão, empilhados por cima do problema original e muito mais difíceis de desfazer.
A boa notícia é que a cópia é a metade fácil. Você não precisa scanner. Um celular dos últimos cinco anos resolve mais detalhe do que um scanner de mesa doméstico numa foto 10×15 cm, e a diferença entre uma cópia ruim e uma boa são uns sessenta segundos de preparo.
Cinco coisas dão errado. São sempre as mesmas cinco.
1. Reflexo - o que realmente importa
Uma foto com acabamento brilhante é um espelho com uma imagem em cima. Aponte o celular para ela sob a lâmpada do teto e você ganha um borrão branco no rosto de alguém - e esse borrão não tem volta: onde o brilho estourou, não existe informação de imagem embaixo. A restauração consegue reconstruir um canto rasgado a partir do contexto. Não consegue reconstruir um rosto que nunca viu.
Solução: ponha a foto deitada numa mesa perto de uma janela, com a janela de lado. Nunca em cima, nunca atrás de você. Depois, antes de fotografar, mexa a cabeça e observe a foto - você vai ver a mancha clara deslizando por cima dela. Ache a posição em que ela sai completamente da borda e fotografe dali.
E desligue o flash. O flash do celular dispara exatamente no eixo da lente, que é justamente a geometria que garante o reflexo voltando na sua cara. Não existe foto, nem ângulo, em que o flash do celular ajude aqui.
2. A sua própria sombra
Assim que a pessoa ouve «fotografe de cima, reto», ela se planta em cima da foto - o que coloca o próprio tronco entre a luz e o papel. O resultado é uma cópia mais escura no topo, ou com uma faixa cinza suave no meio que parece desbotamento mas não é.
Solução: luz de um lado, você do outro. Fique perpendicular à janela e estenda o celular por cima da foto em vez de debruçar o corpo sobre ela. Se o cômodo for apertado, fotografe perto de uma porta aberta - mesmo princípio, mais espaço para você sair do caminho.
3. A foto não está plana, e o celular também não
Fotos antigas enrolam. Fotografe uma foto ondulada e metade fica fora de foco enquanto a outra metade recebe outra luz. Além disso, se o celular não estiver paralelo ao papel, você ganha distorção de perspectiva - a borda longe mais estreita que a perto - e a imagem vira um trapézio sutil, com cada rosto sutilmente esticado.
Solução para a foto: deixe achatar sob peso por algumas horas (um livro em cima, com papel limpo no meio) e prenda os cantos com algo que fique fora do quadro - moedas, chaves, qualquer coisa. Não force uma foto quebradiça e não prense sob vidro: o vidro acrescenta uma segunda superfície reflexiva e trinca uma emulsão que já está frágil.
Solução para o celular: ligue a grade da câmera e, no iPhone, o indicador de nível (Ajustes → Câmera → Composição). Alinhe as bordas da foto com as linhas da grade. Se as bordas parecerem paralelas à grade, o seu sensor está paralelo à foto.
4. A foto é uma ilhinha num quadro grande
Esse é o problema silencioso. A pessoa se afasta, fotografa a foto com 40% do quadro tomado pela mesa e depois recorta. Recortar é jogar pixels fora: uma captura de 12 megapixels que é dois terços mesa entrega uns quatro megapixels de fotografia de verdade.
Solução: preencha o quadro com a foto, com as bordas logo dentro. Se você não consegue chegar perto o bastante sem que a sombra do celular entre, afaste-se e use a lente óptica 2× em vez do zoom de pinça - o zoom de pinça é um recorte feito por você, com a mesma perda.
Toque para focar num rosto, não na borda. Celulares medem a luz pelo elemento mais claro do quadro, e uma borda branca vai fazer com que subexponham tudo o que interessa.
5. Vidro e plástico entre você e a imagem
Uma foto emoldurada atrás de vidro reflete o cômodo inteiro, duas vezes. Páginas de álbum com aquelas folhas plásticas autoadesivas esbranquiçadas espalham a luz e achatam o contraste.
Solução: tire de dentro. Se a foto estiver colada na cola velha do álbum e não sair com pressão leve, pare - deixe onde está e fotografe ali mesmo em vez de rasgar a emulsão. Uma cópia levemente enevoada de uma foto intacta vale mais que uma cópia perfeita de uma que você danificou para tirar.
O que não fazer com a foto original
Vale dizer com todas as letras, porque a internet sugere todas essas coisas:
- Não limpe. Nada de água, nada de álcool, nada de pano. A emulsão fotográfica se solta, e sujeira de superfície se tira digitalmente sem esforço.
- Não cole fita num rasgo. Adesivo é o único tipo de estrago que continua agindo depois que você aplica. Um rasgo fotografa bem e restaura bem.
- Não apare as bordas. Bordas puídas se recortam em segundos; um corte é permanente.
Todas essas coisas são mais fáceis de resolver na cópia do que no original.
O checklist de sessenta segundos
- Foto plana, cantos presos por fora do quadro
- Luz de janela vindo de lado, todas as outras lâmpadas apagadas, flash desligado
- Mova-se até a mancha de reflexo sair da foto
- Celular paralelo - grade ligada, bordas alinhadas
- A foto preenche o quadro, lente 2× se precisar de distância
- Toque num rosto para focar e confira a imagem no zoom máximo antes de seguir
Depois é só subir. Estrago no papel - a restauração resolve; se você quiser a cena em cores também, a colorização faz as duas coisas numa passada só. O que nenhuma das duas consegue é recuperar um rosto que a sua cópia transformou num brilho branco - e é por isso que os sessenta segundos valem a pena.